Monday, November 14, 2011

Instante

Como posso sentir tanto
o que aos outros nem toca?

Como?
Como, mãe? pai?
Como me fizeram assim?

Por que ninguém me diz "te entendo!"?
Pareço-me um vácuo

Não sei nem ao certo o que quero dizer, mas quero dizer algo
Fica aqui registrada essa necessidade de expressão

Sunday, November 13, 2011

Toda mudança começa com uma ideia (idéia).

Aqui em Londres, estou morando com portugueses, e o convívio com eles tem sido muito sadio e produtivo. Além das brincadeiras e jantas que fazemos, temos muitas conversas interessantes sobre os mais variados assuntos. No entanto, um que vem se destacando é a Língua Portuguesa. Creio que seja natural que ocorra esse tipo de debate, visto que no próprio ato de falar nos apercebemos diferentes, e aí se geram mais coisas a serem abordadas.

A questão que mais deu pano pra manga e que mais me tocou, no sentido de me pôr a pensar, foi a norma culta. Estávamos conversando sobre as diferenças entre o português brasileiro e o europeu, quando os nossos amigos portugueses disseram: norma culta? A gente nem estuda isso.

O que vimos no Brasil é um total descolamento entre o que se fala e o que se produz e escreve. Parecem água e óleo, não se misturam, mesmo que se force. Um não se interessa pelo outro, e misturá-los é muito difícil. Gostaria de lançar a discussão e de fazer vocês pensarem a respeito da Língua Brasileira, e mais, de como somos ensinados a nos comunicar e escrever no Brasil.

A disciplina de português nos parece uma doutrina, algo sério demais, um ser superior. Estudamos os tempos verbais, as regras de próclise, ênclise e mesóclise (!), as regências nominais e verbais, entre outros, e, no fundo, o que estamos estudando é "como ser entendido em Portugal". De quê nos serve estudar algo de maneira tão minuciosa se só o usamos para escrever em situações restritas, se não somos compreendidos pelos nossos conterrâneos, se não sai com naturalidade? Crescemos a vida inteira ouvindo frases como "Te amo" ou "Não quero te ver hoje!" e estudamos que estão erradas. O português virou uma coisa chata, sem graça, sem pé nem cabeça, desinteressante e, pior, torturante. Não valorizamos as culturas locais, deixamos de discutir neologismos e usos da língua porque estamos estudando como ser compreendidos em Portugal.

Os portugueses nem precisam pensar para escrever, a língua simplesmente se transfere da mente ao papel, não há limites, grades, regras, ela se torna criativa. Nós, brasileiros, estamos presos a uma realidade que nos é diferente, distante, abstrata.

Obviamente não acho que devemos sair por aí e tornar correto qualquer tipo de uso da língua, até porque, inevitavelmente, daqui a alguns séculos poderíamos nem nos entender. Mas trazer uma teoria para mais perto da realidade sempre a torna mais inspiradora, instigante e inteligente. O que se faz nas escolas do Brasil é uma doutrinação linguística, é uma reprodução do que deveríamos falar. Parece que estamos sempre errados, sempre errando, que somos desleixados, que não nos importamos. E a culpa recai, numa espécie de ciclo vicioso, em boa parte sobre os alunos, desinteressados, que não param para pensar sobre a sua identidade linguística, sobre as expressões fonéticas que mais correspondem ao que sentem, sobre a naturalidade do falar. O português está tão distante deles, que a maioria não lê, não escreve e/ou não acha que aquilo seja relevante.

Proponho uma abertura mental, uma abordagem mais relax, uma independência da Língua Portuguesa Brasileira. Que ela se torne livre da nossa preguiça de pensar, de organizar, que ela não seja mais uma vítima da tradição conservadora. Afinal de contas, onde já se viu termos que parar para raciocinar ao escrever, sendo que a escrita nos toca no âmago da subjetividade, da paixão e da inspiração?

Sejamos menos puristas, por favor, e sejamos mais originais. Um país tão grande, rico e transbordando de culturas merece uma identidade mais consolidada. Se demos o nosso famoso jeitinho brasileiro para burlar as regras do português europeu, que sejamos maduros e responsáveis o suficiente para lhe dar uma cara legal e para torná-lo um traço cultural valioso, e não um bicho de sete cabeças.

Monday, September 26, 2011

Metafísica egoísta

Eu tenho em mim uma quantidade imensurável de sonhos, de expectativas, de esperanças, de lições, de sentimentos que ainda não encontram correspondentes nos dicionários. Tenho alguns quilos de carne fresca, cerca de 70% de água e uns carboidratos aqui e acolá. Não sei como esse físico e essa metafísica se inter-relacionam, como lidam com seus acordos, como estabelecem pactos. Não sei quando nem como, mas tenho a certeza absoluta de que a metafísica não muda o meu status-quo, não se dá por vencida, não lhe convém aceitar uma paridade igualmente justa.
A minha metafísica é ruim, é invejosa, gosta de que transborde sobre o tocável aquilo de que é feita e que, ironicamente, não sabe como chamar-lhe.

Thursday, August 18, 2011

Pequena grande diferença

“Vou chegar em casa e comer um feijão!”
“Tô louco pra tomar um café!”
“Tomar um banho quente num dia frio tem seu valor.”

“Vou chegar em casa e comer um feijãozinho!”
“Tô louco pra tomar um cafezinho!”
“Tomar um banho quentinho num dia frio tem seu valor.”

De inho em inho, a gente se enche de ãos, de alegrias, de momentos simples e pequenos que nos engrandecem a vida.

Friday, July 22, 2011

Melancolia antecipada

A cidade tem ouvidos e bocas
Estas me dizem: "estás partindo? Não vás"

Não sei mais se conquistei Porto Alegre ou se Porto Alegre me conquistou. Acho que conquistamos um ao outro. O fato é que sair dela me doi, me arranca um pedacinho. E a levo comigo também.

Seremos eternos irmãos, daqueles que se tornam ótimos amigos, mas que sabem que, para crescer, às vezes precisam se separar.

Meu Porto hoje está triste...

Mas é temporário.

Thursday, July 21, 2011

A gente é bom!

Eu costumava ser tão rígido com a nossa Língua Portuguesa. Achava-a pior do que as línguas latinas conhecidas, achava que não valia a pena ser aprendida e ficava triste por não usarmos o "tu" ou o "nós" de maneira cotidiana e correta. Para colocar em fácil linguagem, eu era cri-cri!

Agora entendi o quão brasileiro é o nosso Português.
"Estamos sentados na grama do parque"
"A gente tá sentado na grama do parque"

Assim como o jeitinho brasileiro está nas músicas, nas compras, nos estudos e em tantas outras atividades, ele invadiu também o nosso falar. Burlamos o "nós", roubamos "a gente", despimo-lo da sua função coletiva de 3º pessoa do singular e lhe metemos um plural.

Aqui no Brasil a gente somos nós, a gente faz e acontece, a gente engloba eu e você.

Que a gente use mais a locução "a gente"! A gente será mais coletivo, mais solto, mais malandro sem fazer mal a ninguém.

A gente é bom!

Saturday, June 11, 2011

Tô que tô!

Quero ter um cantinho meu
Uma janela que dá pro quintal
Uma caneca de porcelana
Me deitar na cama
Sentir o cheiro que me lembrará
Que estou lá, que é a minha casa

Quero música tocando
Pra espantar o mau-olhado
Convidar amigos
Sem cobrança
Só amizade
Só alegria
Só pureza
Que beleza!

Quero gente que ria
Gente que chore
Gente minha e de cada um
Quero falar de política
De bobagem
De trivialidades

Quero tristeza
Pra me lembrar da alegria
Melancolia
Epidemia
Contágio (de risos!)
Aha-ha-ha

Quero ter vista do Sol
Sentir o calor na pele
Parar o meu tempo
Pelo menos por uns segundos

Quero ser relativo
Nada quero ser inteiro

Quero um porta-retrato na parede
Na sacada uma rede
Na cozinha um forno à lenha
No meu quarto um amor pra vida toda

Quero inventar


Sunday, May 29, 2011

Máscara de palhaço

Há uns dois meses, eu saí do restaurante em que estava almoçando num dia ensolarado de domingo e tomei um caminho "alternativo" para chegar em casa. Era menos movimentado, tinha umas mesas e cadeiras, uma espécie de corredor entre a saída do restaurante e a rua. Para minha surpresa, vi ali sentado um homem com roupas coloridas, sapatos grandes, rosto pintado. Tinha sido um palhaço, não o era mais! Numa das mãos segurava um cigarro aceso, olhava distante para lugar nenhum, estava aproveitando o momento seu de ser ele mesmo, de desvestir-se do que fora.

Aquilo me intrigou, de certo modo. Antes, um ser-humano que é para os outros, que se doa, se dá, se joga; agora um homem para si. Não pude vê-lo e analisá-lo tempo suficiente para dizer se ele estava triste ou alegre, mas com certeza ele estava refletindo sobre algo. Talvez na efemeridade da vida? Talvez numa doença que acabara de descobrir? Talvez na traição da sua esposa? Talvez no dinheiro que receberia pelo trabalho? Não sei, mas a intriga me pegou!

Não pela curiosidade - o que eu mesmo esperaria de mim! -, mas pela percepção de que somos vários. Somos vários porque queremos ou porque não queremos ser nós mesmos? Porque temos vergonha ou porque não temos outras opções?

Seja qual for a resposta, o certo é que há vários eus e outros em nós. O certo é que, em muitos momentos, temos que nos adaptar a situações. Mas eu tenho um receio: o de que, ao sermos as várias coisas, deixemos de ser nós mesmos.

Monday, May 9, 2011

Prazeres de Cada Dia

Ele sai de casa
Põe os pés na rua e caminha ao seu destino
Destino conhecido, tempo lento de divagações
Local definido, pouca pressa

Preocupações mínimas
..Ou talvez diferentes!

Preocupação em encontrar a música mais adequada,
O assobio que mais combine,
O compasso ideal para seus dedos serelepes,
Ideal de achar a moldura para aquele dia!

Tarefa arriscada,
Pelas crianças, pelos sorrisos, pelo parque
Distrações diversas, multiplicidade de escolhas!

O certo é que no final do dia,
mesmo sem moldura completa,
mesmo ainda com ânsia de terminar o que pensou em começar,
ele volta pra casa ansioso pelos dias que ele ainda irá batizar.